Por que estou saindo do Rio para a Copa do Mundo

Por que estou saindo do Rio para a Copa do Mundo

COMO MUITAS FESTAS VERDADEIRAMENTE MEMORÁVEIS, as comemorações da Copa do Mundo no Rio parecem ser uma explosão para todos ... exceto para os anfitriões. Enquanto a imprensa mundial se agita em um frenesi com a próxima festa de belas praias, belas bundas e o belo jogo, estou dando o fora do Rio de Janeiro antes que o primeiro apito soe.

Faltando um dia para o pontapé inicial, a cidade ainda parece um canteiro de obras. Os projetos de transporte e construção que foram prometidos para serem entregues a tempo para a Copa estão a meses - senão anos - de serem concluídos. As tentativas de lançar um véu sobre os terríveis problemas sociais da cidade saíram pela culatra, e tiroteios violentos entre traficantes de drogas e unidades “pacificadoras” da polícia militar tornaram-se uma ocorrência noturna.

Esta teria sido minha terceira Copa do Mundo no Rio e, pelos padrões locais, a decoração das ruas antes da Copa está parecendo sem brilho, para dizer o mínimo. Os murais coloridos relacionados ao futebol que tradicionalmente surgem meses antes da Copa são superados em número por slogans como “F * ck FIFA” e “Queremos Hospitais Padrao FIFA” (“Queremos hospitais padrão FIFA”). Um mural no centro da cidade mostra uma carinha sorridente amarela com um buraco de bala sangrando na cabeça e a frase “Bem vindo ao pais do copa” (“Bem vindo ao País da Copa”).

Com a atenção do mundo no Brasil, e grande parte dessa atenção centrada no Rio, todo mundo com um machado político para moer está defendendo com veemência. Nas últimas semanas, assistimos a greves gerais convocadas por todos, desde motoristas de ônibus e limpadores de rua a guardas de segurança e funcionários de museus, enquanto trabalhadores mal pagos pressionam o governo por salários decentes em uma cidade onde o custo de vida é altíssimo e os salários são muitas vezes vergonhosamente baixos.

Unidades policiais enfeitadas como Robocop com capacetes inspirados em Darth Vader percorrem a magnífica Zona Sul (a rica Zona Sul da cidade, que abriga pontos turísticos como Ipanema, Copacabana e Pão de Açúcar), enquanto gangues mascaradas de manifestantes que se autodenominam “ Black Blocs ”insistem que“ não haverá Copa ”.

Eu imaginei como seria durante a Copa e decidi que não estarei por perto para testemunhar isso.

vai seja uma Copa, e não tenho dúvidas de que será lembrada como uma das mais espetaculares de todos os tempos. Mas como os fãs se concentram em festejar na praia e as câmeras de imprensa se concentram em biquínis pequenininhos, aqueles de nós que moramos aqui terão que enfrentar hordas de visitantes lotando um sistema de transporte público já sobrecarregado, com os já absurdos preços de comida e bebida despencando ainda mais para explorar o dólar turístico e toda uma série de aborrecimentos do dia-a-dia que serão ignorados quando a cidade colocar todos os seus esforços na Copa.

Em uma caminhada rápida pelo centro da cidade algumas manhãs, tive que sair no trânsito três vezes para evitar três tubos explodidos separados vazando esgoto na calçada. As já fracas conexões de internet e telefone parecem fadadas a ficar mais fracas enquanto eles lutam para lidar com o fluxo de visitantes da Copa do Mundo.

O Rio de Janeiro é uma cidade cuja capacidade de cativar só se compara à capacidade de frustrar. Uma cidade com encantos físicos aparentemente infinitos, é também uma cidade com uma divisão entre ricos e pobres que é inacreditável, onde os problemas sociais há muito foram esquecidos em favor da criação de uma cidade esteticamente agradável "para gringo ver" ("para os estrangeiros verem ”).

É uma cidade onde o crime é abundante, onde os preços são altos e a qualidade baixa, e onde as tarefas mais simples e mundanas se transformam em uma aventura de um dia inteiro devido às filas e à burocracia interminável. (Quer um novo cartão SIM para o seu telefone? Primeiro você terá que registrar seu CPF (número da Previdência Social). Não tem um? Boa sorte com isso.)

Por pelo menos um ano, os habitantes locais suspiraram e disseram: “Imagine na copa!” (“Imagine como será durante a Copa”) toda vez que um ônibus sobrecarregado para, um encanamento estourou, uma fila de supermercado se esticou até o infinito. Eu imaginei como seria durante a Copa e decidi que não estarei por perto para testemunhar isso.

Tenho certeza de que será uma ótima festa, mas vou ficar de fora desta. Traga minha primeira Copa do Mundo em Buenos Aires!


Assista o vídeo: CLUBES BRASILEIROS CAMPEÕES DE MUNDIAIS NÃO RECONHECIDOS